Agentes comunitários de Saúde do SUS inspiram reforma da atenção básica na Inglaterra

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Agentes comunitários do SUS influenciam reformulação da atenção primária na Inglaterra

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Imagem: Divulgação

O trabalho dos agentes comunitários de saúde (ACS), um dos principais pilares da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil, vem influenciando mudanças estruturais nas políticas públicas de saúde da Inglaterra. O modelo brasileiro passou a inspirar iniciativas do NHS (National Health Service), sistema que, décadas atrás, serviu de referência para a criação do Sistema Único de Saúde (SUS).

Dados recentes indicam que famílias acompanhadas por agentes comunitários ingleses apresentaram aumento de 40% no uso de serviços preventivos, reforçando a relevância da experiência brasileira no enfrentamento das desigualdades em saúde.

Modelo brasileiro de ACS ganha destaque internacional

Criado em 1991, o programa de agentes comunitários de saúde é composto por profissionais que atuam de forma contínua nos territórios onde vivem, realizando visitas domiciliares, acompanhando famílias e conectando a população aos serviços de saúde e assistência social.

Desde 2006, os ACS integram oficialmente a Estratégia Saúde da Família (ESF), consolidando um modelo de cuidado territorial, preventivo e proativo, voltado à promoção da saúde e ao acompanhamento contínuo da população.

Experiência brasileira inspira projetos do NHS

Desde 2023, o modelo brasileiro passou a orientar projetos do NHS voltados à redução das desigualdades no acesso à prevenção e ao cuidado primário. A proposta vem sendo defendida há cerca de duas décadas pelo pesquisador Matthew Harris, professor de saúde pública do Imperial College London, que atuou como médico de família no SUS entre 1999 e 2003.

Estudo aponta impacto positivo na prevenção em saúde

Um estudo conduzido por pesquisadores da Fiocruz e do Imperial College London, publicado nesta terça-feira (3) na revista Nature Health, apresentou resultados expressivos da adoção do modelo.

Principais resultados do estudo

  • Aumento de 40% no uso de serviços preventivos
  • Crescimento de 47% na cobertura vacinal
  • Alta de 82% na realização de exames de rastreamento e check-ups
  • Redução de 7,4% nos atendimentos médicos não programados

Os dados reforçam o papel da atuação comunitária na ampliação do acesso e na redução da pressão sobre os serviços de urgência.

Inversão da lógica tradicional da cooperação internacional

A experiência chama atenção por romper com a lógica tradicional da cooperação internacional em saúde. Em vez de importar soluções de países ricos, o Reino Unido tem buscado aprender com uma política pública desenvolvida em um país de renda média, marcado por profundas desigualdades sociais e territoriais.

Pressão crescente sobre o sistema de saúde inglês

A adoção do modelo ocorre em um cenário de forte pressão sobre o NHS, que enfrenta:

  • Envelhecimento da população
  • Escassez de profissionais de saúde
  • Impactos prolongados da pandemia de Covid-19
  • Efeitos de políticas de austeridade adotadas desde 2008

Mesmo com um orçamento anual de £165,9 bilhões (cerca de R$ 1,19 trilhão), o sistema convive com filas prolongadas, dificuldades na atenção primária e aumento de doenças evitáveis por vacinação, como sarampo e caxumba.

Atenção proativa versus modelo reativo

Segundo Alessandro Jatobá, primeiro autor do estudo e coordenador-adjunto do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, o fluxo assistencial do NHS ainda é majoritariamente reativo.

“A pessoa procura o serviço quando já está doente. No Brasil, a Estratégia Saúde da Família funciona de forma proativa, com equipes responsáveis por territórios definidos”, explica.

Para ele, o desafio do sistema inglês é reorganizar o cuidado a partir do mapeamento territorial e da identificação das barreiras físicas, sociais e econômicas que dificultam o acesso à saúde.

Evidências do impacto dos ACS no Brasil

No Brasil, a cobertura dos agentes comunitários cresceu de 3,4 agentes por mil habitantes em 2008 para 13,5 por mil em 2024. Pesquisas associam essa expansão a:

  • Redução de internações por condições sensíveis à APS
  • Melhora no acompanhamento de hipertensão e diabetes
  • Ampliação do acesso ao pré-natal
  • Avanços em indicadores de saúde materna

Embora os estudos não comprovem causalidade direta, os dados indicam fortalecimento do SUS por meio da presença territorial dos ACS.

Vínculo comunitário como diferencial do modelo

“Existe uma dimensão muito forte de vínculo”, destaca Jatobá. Segundo ele, o agente comunitário conhece o território, compreende as barreiras enfrentadas pelas famílias e, a partir dessa relação de confiança, consegue promover saúde de forma contínua.

Community health workers passam a integrar plano do NHS

Na Inglaterra, o NHS passou a testar equipes de community health workers (CHWs) em áreas vulneráveis, como bairros de Londres e regiões do sul do país. Esses profissionais realizam visitas domiciliares mensais, atuam de forma proativa e, sempre que possível, são recrutados nas próprias comunidades.

Em 2025, o governo britânico incorporou oficialmente os CHWs — apelidados de “Chewies” — ao Plano Decenal de Saúde, que orienta a reforma do NHS pelos próximos dez anos.

Desafios para a consolidação do modelo

Especialistas alertam que o sucesso do modelo depende de maior integração sistêmica e financiamento estável. Diferentemente do Brasil, os agentes ingleses ainda não estão formalmente inseridos em equipes estruturadas de atenção primária.

“No Brasil, os agentes comunitários estão previstos na Política Nacional de Atenção Básica e contam com orçamento próprio. No Reino Unido, muitos projetos ainda dependem de arranjos locais”, ressalta Jatobá.

Troca de aprendizados entre Brasil e Inglaterra

O intercâmbio também traz lições para o Brasil. Segundo o pesquisador, o NHS possui sistemas de informação mais integrados, fluxos de encaminhamento mais organizados e maior transparência nas filas de espera.

“Esse aprendizado é bidirecional”, conclui.

 

Por: www.acsace.com.br Fonte: Com informações da Folha de S.Paulo.